Juros altos aumentam pressão sobre produtor rural pessoa física
Análise do Rabobank aponta que linhas subsidiadas protegem empresas, enquanto preços de soja e milho influenciam a capacidade de pagamento.
O ambiente de juros altos no Brasil aumenta o custo do crédito rural e pressiona principalmente produtores que atuam como pessoas físicas. A conclusão aparece em estudo do Rabobank sobre os efeitos da política monetária no agronegócio.
Segundo a análise, o custo do financiamento representa o principal canal de transmissão da Selic para o campo. Entretanto, o impacto sobre a inadimplência também depende da renda do setor e dos preços das commodities.
Por isso, os efeitos não atingem todos os produtores da mesma maneira. Pessoas físicas apresentam maior exposição aos juros, enquanto empresas contam com maior participação de linhas direcionadas e subsidiadas.
Entre essas linhas estão operações vinculadas ao Plano Safra. Dessa forma, parte do crédito empresarial fica menos exposta às oscilações das taxas de mercado.
“Os choques monetários elevam os juros do crédito rural e aumentam a inadimplência com maior intensidade entre produtores rurais pessoa física”, diz o estudo.
Após um choque de juros, a inadimplência das pessoas físicas aumenta cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses. Já as concessões para pessoas jurídicas avançam 0,37 ponto percentual após seis meses.
A análise, intitulada “Além do Plano-Safra: Crédito Rural sob Aperto Monetário”, utiliza dados do Banco Central e do próprio Rabobank. Os pesquisadores avaliaram o comportamento do crédito durante ciclos de alta da Selic.
Crédito rural acompanha os ciclos da Selic
De acordo com o Rabobank, as taxas do crédito rural apresentam comportamento cíclico. Em boa medida, elas acompanham os movimentos da taxa básica de juros.
Nos ciclos de aperto monetário entre 2021 e 2023 e entre 2024 e 2025, as taxas de financiamento rural subiram significativamente.
Para pessoas jurídicas, os juros chegaram a níveis próximos ou superiores a 14% ao ano. Enquanto isso, as taxas para pessoas físicas permaneceram abaixo desse patamar, embora também tenham aumentado.
O estudo também identifica movimentos semelhantes no ciclo entre 2015 e 2017. Naquele período, porém, a intensidade foi menor.
Entretanto, juros maiores não provocam automaticamente aumento da inadimplência. O comportamento da renda do produtor exerce papel importante nessa relação.
Soja e milho ajudam a explicar a inadimplência
Os preços agrícolas funcionam como um importante amortecedor diante dos juros elevados. Quando soja e milho valorizam, a receita do produtor pode compensar parte do aumento do custo financeiro.
Foi o que ocorreu em diferentes períodos analisados pelo banco. No ciclo de aperto monetário de 2013-2014, por exemplo, os juros subiram enquanto os preços de soja e milho permaneceram favoráveis.
Além disso, os custos dos fertilizantes estavam relativamente estáveis. Segundo o estudo, esse cenário permitiu a expansão do crédito rural sem deterioração relevante da inadimplência.
Algo semelhante aconteceu entre 2021 e 2022. Apesar da forte alta da Selic e do aumento dos custos dos insumos, as commodities agrícolas permaneceram em níveis historicamente elevados.
Com isso, o ambiente ajudou a sustentar o fluxo de caixa dos produtores. Consequentemente, a inadimplência permaneceu sob controle naquele período.
Cenário recente ficou menos favorável
No ciclo entre 2024 e 2025, o cenário mudou. Os juros do crédito rural permaneceram elevados, enquanto os preços de soja e milho recuaram em relação aos picos anteriores.
Ao mesmo tempo, os custos dos fertilizantes começaram a apresentar alguma normalização. Assim, o produtor enfrentou uma combinação menos favorável.
A receita ficou menor, enquanto o crédito continuou mais caro. Segundo o Rabobank, esse ambiente coincidiu com uma alta mais clara da inadimplência entre produtores pessoa física.
“Juros elevados, isoladamente, não implicam deterioração relevante quando preços agrícolas sustentam o caixa do produtor.”
Pessoa física sofre maior impacto
A participação de linhas direcionadas e subsidiadas reduz a sensibilidade das empresas às variações da Selic. Esse mecanismo limita a transmissão direta dos juros para parte do crédito empresarial.
Para o produtor pessoa física, entretanto, a proteção é menor. O estudo aponta que choques inesperados de juros aumentam a inadimplência desse grupo nos meses seguintes.
O efeito estimado chega a aproximadamente 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses após o choque.
Nas pessoas jurídicas, a transmissão apresenta intensidade menor. O estudo encontrou efeito de 0,37 ponto percentual nas concessões após seis meses, mas pouca evidência de impacto persistente sobre a inadimplência.
Inadimplência avançou entre produtores pessoa física
A trajetória da inadimplência também apresenta diferenças entre os dois segmentos.
Entre empresas, o Rabobank identificou um comportamento atípico entre 2019 e 2021. Naquele período, a inadimplência chegou perto de 6% ao ano.
Depois, o indicador recuou rapidamente para níveis próximos de zero. Segundo o banco, medidas adotadas durante a pandemia influenciaram esse movimento.
As medidas permitiram prorrogações e renegociações de operações de crédito rural. Além disso, elas postergaram o reconhecimento de atrasos superiores a 90 dias.
Entre produtores pessoa física, a trajetória foi diferente. A inadimplência cresceu gradualmente durante o período analisado.
A aceleração ocorreu principalmente entre 2024 e 2026. Nesse período, o indicador chegou a aproximadamente 7% ao ano.
Concessões de crédito apresentam forte oscilação
O levantamento também mostra elevada volatilidade nas concessões de crédito rural. O mercado alterna períodos de expansão e contração, embora apresente tendência de crescimento desde 2020.
Entre 2021 e o início de 2022, as concessões cresceram mais de 60% na comparação anual. As pessoas físicas lideraram esse movimento.
Na sequência, o mercado registrou uma correção em 2023. O movimento atingiu principalmente esse segmento.
Em 2024, porém, o crescimento voltou a acelerar. Dessa vez, as pessoas jurídicas puxaram o avanço e também registraram picos superiores a 60% ao ano.
Depois de nova desaceleração no início de 2025, os dados de 2026 apontam uma recomposição moderada do crescimento agregado, segundo o Rabobank.
Plano Safra limita transmissão dos juros
O crédito rural reúne recursos livres, direcionados e subsidiados. Por isso, a Selic não determina automaticamente o custo de todas as operações.
Essa característica tem impacto especialmente relevante para as pessoas jurídicas. Segundo o Rabobank, a participação elevada de linhas direcionadas e subsidiadas do Plano Safra reduz o repasse direto das oscilações da Selic.
Dessa forma, a alta dos juros básicos não provoca uma deterioração generalizada do crédito rural.
O estudo avaliou os efeitos de choques inesperados na Selic sobre três indicadores: juros do crédito, concessões e inadimplência.
Os pesquisadores calcularam os resultados para horizontes de três, seis, nove e 12 meses.
De modo geral, a transmissão da política monetária aparece como limitada, mas assimétrica. Para pessoas físicas, o principal efeito ocorre no aumento das taxas e, em períodos mais longos, na inadimplência.
Para empresas, a transmissão é mais fraca. Além disso, os efeitos sobre o custo do crédito são menos persistentes e há pouca evidência de aumento da inadimplência.
“Os impactos mais robustos concentram-se no aumento da inadimplência das famílias.”
O Rabobank conclui que o aperto monetário não provoca uma deterioração generalizada do crédito rural. Entretanto, ele aumenta gradualmente a vulnerabilidade de determinados segmentos.
“O canal de transmissão da política monetária para o crédito rural permanece ativo.”
Assim, o preço das commodities continua decisivo para o produtor. Quando soja e milho valorizam, a renda maior pode compensar parte do custo financeiro.
Por outro lado, quando os preços caem, os juros elevados passam a pesar mais sobre o caixa do produtor rural.
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Fonte: CNN Brasil
Crédito da foto: Imagem gerada por IA/Goiás em Pauta

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