Crédito da foto: Reuters/Evan Vucci
Agro

Trump quer ampliar processamento de carne nos EUA

Governo americano avalia mudanças nas regras de processamento enquanto enfrenta oferta restrita, preços elevados e pressão de pecuaristas.

O governo dos Estados Unidos deve anunciar detalhes de um plano de Donald Trump para ampliar o processamento de carne dentro das propriedades rurais. A proposta busca facilitar a atuação dos pecuaristas e reduzir o domínio das grandes empresas de processamento no mercado americano.

Trump afirmou, em uma rede social, que pretende ampliar medidas legais para fortalecer o setor produtivo. Além disso, o presidente criticou o que chamou de “monopólio perverso” das grandes companhias globais de carne.

Segundo informações da Reuters e do The Guardian, a secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, anunciou “grandes anúncios” sobre o tema. De acordo com ela, o país precisa ampliar a própria capacidade de produção de alimentos, especialmente por uma questão de segurança nacional.

Nesse contexto, o USDA, Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, avalia mudanças para reduzir entraves regulatórios ligados ao processamento de carne. Entre as possibilidades, está a ampliação da capacidade de pequenos produtores comercializarem seus produtos entre diferentes estados.

Pecuária enfrenta oferta restrita

A proposta envolve três grupos diretamente afetados pelo cenário atual: pecuaristas, frigoríficos e consumidores.

De um lado, os pecuaristas enfrentam um rebanho reduzido e preços que pressionam a atividade. Por outro, os frigoríficos concentram grande capacidade de abate e processamento dentro das regras de segurança alimentar.

Enquanto isso, os consumidores lidam com preços elevados da carne bovina.

Para Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado, o governo Trump atribui às grandes indústrias parte da responsabilidade pela crise. Entretanto, segundo o especialista, outros fatores também explicam a redução da oferta de gado nos Estados Unidos.

“O governo Trump está tentando reduzir o poder dessas indústrias de processamento de carne no mercado norte-americano, atribuindo a elas parte da responsabilidade pela crise que o setor atravessa em 2026. Mas não é bem assim. Também faltaram incentivos governamentais para estimular o aumento do rebanho”, afirma Iglesias.

Segundo o analista, a redução da oferta resulta de uma combinação de fatores acumulados nos últimos anos. Além disso, mudanças na produção agrícola e condições climáticas afetaram os custos da pecuária.

“Houve muito incentivo à produção de grãos nos Estados Unidos ao longo desta década, e isso acabou afetando a pecuária. Também tivemos secas nas planícies do norte, que reduziram a disponibilidade de feno para a alimentação dos animais, elevando os custos da dieta animal”, explica.

Mudança pode levar anos

Iglesias também avalia que ampliar a participação dos próprios pecuaristas no processamento enfrenta obstáculos estruturais. Atualmente, grandes companhias concentram elevada capacidade de abate e processamento no país.

Por isso, uma mudança nesse modelo não deve ocorrer rapidamente.

“Não é necessariamente simples alterar essa lógica. Hoje, essas empresas têm uma capacidade de processamento muito ampla e um domínio muito grande sobre o mercado norte-americano. Portanto, não é simples mudar essa estrutura oferecendo ao produtor a perspectiva de criar frigoríficos próprios”, afirma.

Além disso, o analista estima que uma eventual mudança levaria tempo para produzir efeitos sobre a cadeia de carne bovina.

“É uma medida que não vai produzir mudanças rapidamente. Serão necessários pelo menos dois ou três anos para que isso possa, de fato, trazer algum impacto para o mercado norte-americano”, conclui Iglesias.

Trump também amplia importações

Paralelamente à proposta de mudança no processamento, o governo americano anunciou medidas para aumentar temporariamente a entrada de carne bovina estrangeira sem tarifa extra-cota.

Trump anunciou o plano em 25 de agosto. A iniciativa busca elevar a oferta no mercado americano e, consequentemente, pressionar os preços para baixo.

No entanto, a medida provocou reação entre pecuaristas e parlamentares de importantes estados produtores. Entre os críticos está o senador republicano Tim Sheehy, de Montana, aliado do presidente.

O setor teme que a entrada de carne estrangeira mais barata pressione as cotações no mercado doméstico. Além disso, produtores avaliam que margens menores podem reduzir os recursos disponíveis para recompor o rebanho bovino.

Segundo o The Guardian, ainda existem dúvidas sobre o alcance legal das mudanças relacionadas ao processamento. Isso ocorre porque os Estados Unidos mantêm regras rígidas para inspeção, processamento e comercialização de carne.

Uma proposta para flexibilizar essas exigências para pequenos produtores está parada no Congresso. O republicano Thomas Massie, um dos autores do projeto, defende uma mudança por meio de lei, e não apenas por ordem executiva.

Governo tenta responder à pressão do setor

Antes dos novos anúncios, Brooke Rollins já havia defendido a flexibilização temporária da compra de carne bovina estrangeira.

Durante a Feira Estadual de Iowa, em Des Moines, no dia 22 de agosto, a secretária afirmou que apoiava a medida diante do cenário de rebanho limitado nos Estados Unidos.

Segundo Rollins, a iniciativa ajudaria a enfrentar a oferta restrita e os preços elevados para os consumidores.

Ao mesmo tempo, o governo Trump tenta responder à insatisfação dos pecuaristas e à pressão causada pelo preço da carne bovina. O tema ganhou importância adicional diante das eleições de meio de mandato, previstas para novembro.

Consumo americano depende de importações

Os Estados Unidos consomem cerca de 13 milhões de toneladas de carne bovina por ano, segundo o USDA. Desse volume, aproximadamente 11 milhões de toneladas vêm de animais criados no próprio país.

Consequentemente, as importações completam a oferta disponível ao consumidor americano. Para Rollins, essa participação estrangeira faz parte da dinâmica normal do mercado.

Segundo a secretária, o país deve importar cerca de 300 mil toneladas de carne moída nos próximos 90 dias. A expectativa apresentada por ela é de que a medida ajude a reduzir os preços para as famílias.

A Associação de Pecuaristas de Iowa, entretanto, criticou a iniciativa. Para o presidente da entidade, Bryan Whaley, mesmo a carne moída importada representa maior entrada de produto estrangeiro no mercado americano.

Assim, o governo enfrenta o desafio de aumentar a oferta e, ao mesmo tempo, preservar as condições necessárias para que os pecuaristas ampliem o rebanho nos próximos anos.

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Fonte: CNN Brasil

Crédito da foto: Reuters/Evan Vucci

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